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Sempre-viva em primeiro plano e, ao fundo, a Cachoeira do Tabuleiro caindo de um paredão alaranjado

Travessia Lapinha–Tabuleiro (Serra do Cipó, MG): roteiro e dicas

Santana do Riacho e Conceição do Mato Dentro, Minas GeraisTravessiaDificuldade 4 de 5:pesada
Altitude
1.687 m
Distância
42 km
Duração
2 a 3 dias (há quem faça em 6 a 7 horas pelo caminho mais curto)
Quando ir
Abril a setembro (estação seca)
Acesso e taxas
Sem taxa ou guia obrigatório conhecidos para a travessia; taxa e horários próprios para a Cachoeira do Tabuleiro
Técnica
Não exige equipamento; navegação difícil, sem sinalização contínua, e subidas íngremes com mochila cargueira
Água
Rios e córregos ao longo do caminho, como o Parauninha; trate a água
Acampamento
Em pontos de apoio de moradores, com reserva prévia

Perder-se é comum entre Lapinha e Tabuleiro. Leve trilha gravada no GPS e não desça serras depois do pôr do sol.

A Travessia Lapinha–Tabuleiro é uma caminhada de 2 a 3 dias pela Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, que sai do povoado de Lapinha da Serra, em Santana do Riacho, e termina no distrito de Tabuleiro, em Conceição do Mato Dentro, diante da Cachoeira do Tabuleiro, a maior de Minas, com 273 m de queda livre. Não há um traçado único: conforme o caminho, a travessia tem de 20 a 45 km, e a prefeitura de Conceição do Mato Dentro a classifica como difícil, com 42 km. O ponto mais alto possível é o Pico do Breu, a 1.687 m, mas a maioria contorna esse maciço. O que mais pesa não é a altitude: é a navegação, em trilhas sem sinalização contínua, com mochila cargueira e pernoite em casas de moradores que funcionam como pontos de apoio.

Onde fica e como chegar à Lapinha da Serra?

A travessia corta a porção sul da Serra do Espinhaço, na região conhecida como Serra do Cipó, a nordeste de Belo Horizonte. A Lapinha da Serra é um povoado do século XVIII ao pé do maciço do Breu, no município de Santana do Riacho, que fica a cerca de 130 km da capital.

Um relato do Trekking Brasil descreve o caminho de carro: cerca de 100 km pela MG-010 de Belo Horizonte até o distrito da Serra do Cipó, e mais 44 km, passando por Santana do Riacho, até a Lapinha, parte em estrada de terra. Há ônibus de Belo Horizonte para Santana do Riacho pelas linhas que seguem para Conceição do Mato Dentro e Serro.

O fim da travessia é o distrito de Tabuleiro, a 19 km da sede de Conceição do Mato Dentro. A volta precisa de planejamento: não há transporte público direto entre os dois distritos, e o usual é combinar com antecedência um resgate de carro no Tabuleiro.

Lagoa da Lapinha da Serra com a serra rochosa iluminada pelo sol ao fundo
A lagoa da Lapinha da Serra, ponto de partida · Gustavo Couto, CC BY-SA 4.0

Como é a trilha da Travessia Lapinha–Tabuleiro?

O geógrafo Lucas Padoan, que estudou a travessia em dissertação de mestrado na UFMG em 2017, descreve o trajeto como uma rede de caminhos, não uma trilha única. Daí a diferença entre as fontes: o Hiking Project registra uma versão de 19,7 km, um relato do Trekking Brasil fala em 26 km, provas de corrida usam 34 km e a prefeitura de Conceição do Mato Dentro indica 42 km. A descrição abaixo segue a lógica mais comum, de oeste para leste.

Primeiro trecho: o maciço do Breu

Logo na saída da Lapinha vem a primeira decisão. A maioria contorna o maciço do Breu. A alternativa é subir o Pico do Breu, de 1.687 m, o ponto mais alto de Santana do Riacho e de toda a travessia. A subida é exposta, a trilha some em trechos e o Trail Run Project a descreve como perigosa; o vento no topo costuma ser gelado. Quem sobe precisa garantir a descida para o vale ainda com luz do dia.

Contornando o Breu, a trilha fica bem abaixo do cume: o Hiking Project registra 1.423 m como ponto mais alto da sua versão da rota. A paisagem é de campo rupestre, com chão de areia e quartzito, sempre-vivas e quase nenhuma sombra.

Segundo trecho: o vale do Rio Parauninha e a Serra da Calçada

Depois do Breu a trilha desce ao vale do Rio Parauninha, onde muita gente para para se banhar. A dois quilômetros do rio fica a casa da Ana Benta, ponto de apoio mais próximo da Lapinha, ao pé da Serra da Calçada. Segundo a dissertação, a moradora que dava nome ao lugar morreu em 2014, e a família passou a receber grupos com agendamento, em fins de semana e feriados.

Do vale, sobe-se a Serra da Calçada, por uma estrada ao lado da casa da Ana Benta ou por uma passagem mais escarpada ao norte. Lá em cima, os mirantes mostram o vale do Parauninha, o Pico do Breu e os Três Irmãos. No alto da Calçada ficam outros pontos de apoio citados nas fontes, como as casas de Chico Lages, Chico Niquinho e de seu Zé d'Olinta e dona Maria, essa já no meio do Parque Estadual da Serra do Intendente. Confirme antes quais estão recebendo caminhantes.

Panorama da Serra do Espinhaço vista da Lapinha da Serra, com o Pico da Lapinha e o Pico do Breu
Os picos da Lapinha e do Breu vistos do povoado · Fábio Martins Hayashi, CC BY-SA 3.0

Terceiro trecho: a chegada ao Tabuleiro

Dos pontos de apoio no alto da serra saem trilhas para a parte alta da Cachoeira do Tabuleiro, onde o Ribeirão do Campo forma poços e pequenas quedas antes do grande salto, a cerca de 1.050 m de altitude. Do alto, é preciso contornar a queda pelo leste ou voltar ao ponto de apoio para pegar a trilha de descida ao distrito.

Na parte baixa, a trilha entre a sede do Parque Natural Municipal do Tabuleiro e o poço da cachoeira tem cerca de 2,5 a 3 km, terreno irregular, e leva por volta de 1h30. O poço, cercado de blocos de pedra, tem cerca de 20 m de profundidade.

Quanto tempo leva cada dia?

Um roteiro clássico em três dias, publicado pelo Trekking Brasil, foi assim: cerca de 7,5 km no primeiro dia, da Lapinha até perto da casa da Ana Benta; 9,5 km no segundo, subindo a Serra da Calçada até a casa de dona Maria; e uns 5 km de descida no terceiro até a portaria do parque, mais 2 km de trilha íngreme até o poço. A dissertação da UFMG registra que caminhantes muito preparados fazem o trajeto contornando o Breu em seis a sete horas, mas que a maioria prefere ao menos um pernoite.

Quando fazer a travessia?

De abril a setembro, na estação seca, as trilhas ficam firmes, os rios baixos e a visibilidade melhor. As noites no alto da serra são frias, sobretudo de junho a agosto. Nessa época a Cachoeira do Tabuleiro tem menos água, mas continua impressionante.

De novembro a março chove forte à tarde, a neblina fecha as serras e os rios sobem rápido. A dissertação da UFMG alerta para correnteza forte e cabeça-d'água na parte alta do Tabuleiro nessa época. Feriados prolongados lotam os pontos de apoio: reserve antes.

Quais são as regras, taxas e exigência de guia?

A travessia passa por um mosaico de áreas protegidas: a APA Morro da Pedreira, unidade federal de uso sustentável administrada pelo ICMBio, criada em 1990; o Parque Estadual da Serra do Intendente, de proteção integral, criado em 2007 e administrado pelo IEF; e o Parque Natural Municipal do Tabuleiro, criado em 1998 e regulamentado em 2013, dentro do parque estadual.

Nas fontes oficiais consultadas não há exigência de guia nem taxa específica para a travessia. A Cachoeira do Tabuleiro, por outro lado, tem regras próprias, segundo a prefeitura:

Item Regra divulgada pela prefeitura
Funcionamento Diariamente, das 8h às 17h, só com condições climáticas favoráveis
Parte alta Entrada pela sede permitida das 8h às 9h
Poço da cachoeira Entrada até as 14h
Taxa R$ 10 por pessoa (valor publicado, confirme na portaria)
Limite 450 pessoas por dia no parque
Proibições Animais domésticos; rapel, escalada e esportes de aventura só com autorização

O texto da prefeitura cita como fonte um plano municipal de 2007, então a taxa pode ter mudado. Os pontos de apoio cobram camping, banho e refeições à parte; combine os valores antes. Dentro do parque estadual, que é de proteção integral, confirme com o IEF onde o pernoite é permitido.

O que levar na travessia?

  • GPS ou celular com a trilha gravada e mapa offline, além de bateria extra.
  • Mochila cargueira com barraca, saco de dormir para noites frias e isolante.
  • Filtro ou pastilhas para tratar a água dos rios e córregos.
  • Comida para todos os dias, mesmo contando com refeições nos pontos de apoio.
  • Bota de trilha, polainas e bastões para as descidas íngremes.
  • Anorak impermeável e camada quente: chuva e neblina aparecem até na seca.
  • Protetor solar, chapéu e óculos para os campos sem sombra.
  • Lanterna de cabeça e apito.
  • Dinheiro em espécie para os pontos de apoio e para a taxa do Tabuleiro.
  • Saco para levar todo o lixo de volta.

Quais são os riscos da Travessia Lapinha–Tabuleiro?

Perder-se é o risco mais comum. A dissertação de Padoan conta que os moradores dos pontos de apoio muitas vezes saem à noite para procurar caminhantes que não voltaram, e o relato do Trekking Brasil descreve um grupo que errou a bifurcação para o Tabuleiro e precisou voltar uma hora. Organizadores de provas na rota avisam que não há marcação contínua. Leve a trilha gravada e confira a posição nas bifurcações.

A subida e a descida do Pico do Breu são o trecho mais exposto, e não devem ser feitas com neblina, chuva ou pouca luz. Na parte alta do Tabuleiro, fique longe da borda e dos poços quando estiver chovendo na serra. Não conte com sinal de celular na maior parte do caminho, deixe o roteiro com alguém e combine a hora de chegada com quem fará o resgate. Em emergência, ligue 193 (Bombeiros) assim que tiver sinal.

Vista do alto da Cachoeira do Tabuleiro, com a água se desfazendo em spray sobre o abismo
Do alto da Cachoeira do Tabuleiro · Thomas Lehmann (Horizonterix), CC BY-SA 4.0

Qual é a história da travessia?

Os caminhos entre Lapinha e Tabuleiro são antigos. A dissertação da UFMG lembra que foram usados por paleoíndios, tropeiros, naturalistas e pelas comunidades da região, e ainda servem a romarias. No começo do século XX, o engenheiro e naturalista Álvaro da Silveira descreveu em "Flora e Serras Mineiras" (1908) sua subida ao Pico do Breu, a cujo cume, segundo os moradores, ninguém tinha ido. Como roteiro turístico, a travessia ganhou fama nos anos 2000 e hoje é um dos atrativos mais procurados da Serra do Cipó.

A rota cruza um divisor de águas: o lado oeste, da Lapinha, drena para o São Francisco; o lado leste, do Tabuleiro, para o Rio Doce, mais úmido e com mais mata. O nome Espinhaço foi cunhado pelo alemão Wilhelm Ludwig von Eschwege em 1822, comparando a serra a uma espinha dorsal, e a UNESCO reconheceu boa parte dela como Reserva da Biosfera em 2005.

A Cachoeira do Tabuleiro, também chamada de cachoeira do coração pelo formato do paredão, foi eleita em 2012 uma das 7 Maravilhas da Estrada Real e duas vezes apontada pelo Guia Quatro Rodas como a mais bonita do Brasil, segundo a prefeitura.

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Panorama da Serra do Espinhaço vista da Lapinha da Serra, com o Pico da Lapinha e o Pico do Breu
Panorama da Serra do Espinhaço vista da Lapinha da Serra, com o Pico da Lapinha e o Pico do Breu. Fábio Martins Hayashi, CC BY-SA 3.0
Lagoa da Lapinha da Serra com a serra rochosa iluminada pelo sol ao fundo
Lagoa da Lapinha da Serra com a serra rochosa iluminada pelo sol ao fundo. Gustavo Couto, CC BY-SA 4.0
Vista do alto da Cachoeira do Tabuleiro, com a água se desfazendo em spray sobre o abismo
Vista do alto da Cachoeira do Tabuleiro, com a água se desfazendo em spray sobre o abismo. Thomas Lehmann (Horizonterix), CC BY-SA 4.0

Perguntas frequentes

Quantos quilômetros tem a Travessia Lapinha–Tabuleiro?

Depende do caminho: entre 20 e 45 km, segundo estudo da UFMG. A prefeitura de Conceição do Mato Dentro indica 42 km em 2 a 3 dias; relatos e mapas online trazem versões de 20 a 34 km.

Quantos dias leva a Travessia Lapinha–Tabuleiro?

A maioria faz em 2 ou 3 dias, com pernoite em pontos de apoio de moradores. Caminhantes muito preparados fazem o trajeto mais curto, contornando o Pico do Breu, em 6 a 7 horas.

Precisa de guia para fazer a Travessia Lapinha–Tabuleiro?

Nenhuma regra oficial encontrada exige guia. Como não há sinalização contínua e perder-se é comum, contrate condutor local se não tiver experiência com navegação por GPS.

Qual é o ponto mais alto da travessia?

O Pico do Breu, com 1.687 m, ponto culminante de Santana do Riacho. A maioria contorna o maciço do Breu, e nesse caso o trajeto fica bem abaixo disso; o Hiking Project registra 1.423 m como ponto mais alto da sua versão.

Qual a altura da Cachoeira do Tabuleiro?

273 m de queda livre, a maior de Minas Gerais e a terceira do Brasil, segundo a prefeitura de Conceição do Mato Dentro. O poço na base tem cerca de 20 m de profundidade.

Onde dormir na Travessia Lapinha–Tabuleiro?

Nos pontos de apoio: casas de moradores que recebem caminhantes com área de camping e, combinando antes, banho quente e refeição. As principais ficam ao pé e no alto da Serra da Calçada.

Como voltar de Tabuleiro para a Lapinha?

Não há transporte público direto entre os dois distritos. O usual é combinar antes um resgate de carro no Tabuleiro, ou deixar o carro em Conceição do Mato Dentro e ir de transporte contratado até a Lapinha.

No mapa

-19.0894, -43.5516 · 1.687 m

Fontes

  1. 01Travessia Lapinha-Tabuleiro: Turismo · Prefeitura de Conceição do Mato Dentro
  2. 02Cachoeira do Tabuleiro: Turismo · Prefeitura de Conceição do Mato Dentro
  3. 03O ecoar da travessia: a imersão humana na travessia Lapinha-Tabuleiro (dissertação de mestrado) · Lucas L. F. Padoan, UFMG (2017)
  4. 04Travessia Lapinha da Serra to Tabuleiro · Hiking Project
  5. 05Travessia Lapinha–Tabuleiro (relato) · Trekking Brasil (2011)
  6. 06Desafio Minas Trail: Travessias, 3ª etapa (Lapinha–Tabuleiro) · Haid / Minas Trail
  7. 07Pico do Breu to Picos da Lapinha · Trail Run Project
  8. 08Santana do Riacho · Wikipédia
  9. 09Cachoeira do Tabuleiro · Wikipédia
  10. 10Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira · Wikipédia
  11. 11Serra do Espinhaço · Wikipédia

Publicado em 11 de outubro de 2026. Regras de parques e taxas mudam: confirme com o órgão responsável antes de ir. Capa: Guilherme Haruo, CC BY-SA 4.0.

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