Perder-se é comum entre Lapinha e Tabuleiro. Leve trilha gravada no GPS e não desça serras depois do pôr do sol.
A Travessia Lapinha–Tabuleiro é uma caminhada de 2 a 3 dias pela Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, que sai do povoado de Lapinha da Serra, em Santana do Riacho, e termina no distrito de Tabuleiro, em Conceição do Mato Dentro, diante da Cachoeira do Tabuleiro, a maior de Minas, com 273 m de queda livre. Não há um traçado único: conforme o caminho, a travessia tem de 20 a 45 km, e a prefeitura de Conceição do Mato Dentro a classifica como difícil, com 42 km. O ponto mais alto possível é o Pico do Breu, a 1.687 m, mas a maioria contorna esse maciço. O que mais pesa não é a altitude: é a navegação, em trilhas sem sinalização contínua, com mochila cargueira e pernoite em casas de moradores que funcionam como pontos de apoio.
Onde fica e como chegar à Lapinha da Serra?
A travessia corta a porção sul da Serra do Espinhaço, na região conhecida como Serra do Cipó, a nordeste de Belo Horizonte. A Lapinha da Serra é um povoado do século XVIII ao pé do maciço do Breu, no município de Santana do Riacho, que fica a cerca de 130 km da capital.
Um relato do Trekking Brasil descreve o caminho de carro: cerca de 100 km pela MG-010 de Belo Horizonte até o distrito da Serra do Cipó, e mais 44 km, passando por Santana do Riacho, até a Lapinha, parte em estrada de terra. Há ônibus de Belo Horizonte para Santana do Riacho pelas linhas que seguem para Conceição do Mato Dentro e Serro.
O fim da travessia é o distrito de Tabuleiro, a 19 km da sede de Conceição do Mato Dentro. A volta precisa de planejamento: não há transporte público direto entre os dois distritos, e o usual é combinar com antecedência um resgate de carro no Tabuleiro.

Como é a trilha da Travessia Lapinha–Tabuleiro?
O geógrafo Lucas Padoan, que estudou a travessia em dissertação de mestrado na UFMG em 2017, descreve o trajeto como uma rede de caminhos, não uma trilha única. Daí a diferença entre as fontes: o Hiking Project registra uma versão de 19,7 km, um relato do Trekking Brasil fala em 26 km, provas de corrida usam 34 km e a prefeitura de Conceição do Mato Dentro indica 42 km. A descrição abaixo segue a lógica mais comum, de oeste para leste.
Primeiro trecho: o maciço do Breu
Logo na saída da Lapinha vem a primeira decisão. A maioria contorna o maciço do Breu. A alternativa é subir o Pico do Breu, de 1.687 m, o ponto mais alto de Santana do Riacho e de toda a travessia. A subida é exposta, a trilha some em trechos e o Trail Run Project a descreve como perigosa; o vento no topo costuma ser gelado. Quem sobe precisa garantir a descida para o vale ainda com luz do dia.
Contornando o Breu, a trilha fica bem abaixo do cume: o Hiking Project registra 1.423 m como ponto mais alto da sua versão da rota. A paisagem é de campo rupestre, com chão de areia e quartzito, sempre-vivas e quase nenhuma sombra.
Segundo trecho: o vale do Rio Parauninha e a Serra da Calçada
Depois do Breu a trilha desce ao vale do Rio Parauninha, onde muita gente para para se banhar. A dois quilômetros do rio fica a casa da Ana Benta, ponto de apoio mais próximo da Lapinha, ao pé da Serra da Calçada. Segundo a dissertação, a moradora que dava nome ao lugar morreu em 2014, e a família passou a receber grupos com agendamento, em fins de semana e feriados.
Do vale, sobe-se a Serra da Calçada, por uma estrada ao lado da casa da Ana Benta ou por uma passagem mais escarpada ao norte. Lá em cima, os mirantes mostram o vale do Parauninha, o Pico do Breu e os Três Irmãos. No alto da Calçada ficam outros pontos de apoio citados nas fontes, como as casas de Chico Lages, Chico Niquinho e de seu Zé d'Olinta e dona Maria, essa já no meio do Parque Estadual da Serra do Intendente. Confirme antes quais estão recebendo caminhantes.

Terceiro trecho: a chegada ao Tabuleiro
Dos pontos de apoio no alto da serra saem trilhas para a parte alta da Cachoeira do Tabuleiro, onde o Ribeirão do Campo forma poços e pequenas quedas antes do grande salto, a cerca de 1.050 m de altitude. Do alto, é preciso contornar a queda pelo leste ou voltar ao ponto de apoio para pegar a trilha de descida ao distrito.
Na parte baixa, a trilha entre a sede do Parque Natural Municipal do Tabuleiro e o poço da cachoeira tem cerca de 2,5 a 3 km, terreno irregular, e leva por volta de 1h30. O poço, cercado de blocos de pedra, tem cerca de 20 m de profundidade.
Quanto tempo leva cada dia?
Um roteiro clássico em três dias, publicado pelo Trekking Brasil, foi assim: cerca de 7,5 km no primeiro dia, da Lapinha até perto da casa da Ana Benta; 9,5 km no segundo, subindo a Serra da Calçada até a casa de dona Maria; e uns 5 km de descida no terceiro até a portaria do parque, mais 2 km de trilha íngreme até o poço. A dissertação da UFMG registra que caminhantes muito preparados fazem o trajeto contornando o Breu em seis a sete horas, mas que a maioria prefere ao menos um pernoite.
Quando fazer a travessia?
De abril a setembro, na estação seca, as trilhas ficam firmes, os rios baixos e a visibilidade melhor. As noites no alto da serra são frias, sobretudo de junho a agosto. Nessa época a Cachoeira do Tabuleiro tem menos água, mas continua impressionante.
De novembro a março chove forte à tarde, a neblina fecha as serras e os rios sobem rápido. A dissertação da UFMG alerta para correnteza forte e cabeça-d'água na parte alta do Tabuleiro nessa época. Feriados prolongados lotam os pontos de apoio: reserve antes.
Quais são as regras, taxas e exigência de guia?
A travessia passa por um mosaico de áreas protegidas: a APA Morro da Pedreira, unidade federal de uso sustentável administrada pelo ICMBio, criada em 1990; o Parque Estadual da Serra do Intendente, de proteção integral, criado em 2007 e administrado pelo IEF; e o Parque Natural Municipal do Tabuleiro, criado em 1998 e regulamentado em 2013, dentro do parque estadual.
Nas fontes oficiais consultadas não há exigência de guia nem taxa específica para a travessia. A Cachoeira do Tabuleiro, por outro lado, tem regras próprias, segundo a prefeitura:
| Item | Regra divulgada pela prefeitura |
|---|---|
| Funcionamento | Diariamente, das 8h às 17h, só com condições climáticas favoráveis |
| Parte alta | Entrada pela sede permitida das 8h às 9h |
| Poço da cachoeira | Entrada até as 14h |
| Taxa | R$ 10 por pessoa (valor publicado, confirme na portaria) |
| Limite | 450 pessoas por dia no parque |
| Proibições | Animais domésticos; rapel, escalada e esportes de aventura só com autorização |
O texto da prefeitura cita como fonte um plano municipal de 2007, então a taxa pode ter mudado. Os pontos de apoio cobram camping, banho e refeições à parte; combine os valores antes. Dentro do parque estadual, que é de proteção integral, confirme com o IEF onde o pernoite é permitido.
O que levar na travessia?
- GPS ou celular com a trilha gravada e mapa offline, além de bateria extra.
- Mochila cargueira com barraca, saco de dormir para noites frias e isolante.
- Filtro ou pastilhas para tratar a água dos rios e córregos.
- Comida para todos os dias, mesmo contando com refeições nos pontos de apoio.
- Bota de trilha, polainas e bastões para as descidas íngremes.
- Anorak impermeável e camada quente: chuva e neblina aparecem até na seca.
- Protetor solar, chapéu e óculos para os campos sem sombra.
- Lanterna de cabeça e apito.
- Dinheiro em espécie para os pontos de apoio e para a taxa do Tabuleiro.
- Saco para levar todo o lixo de volta.
Quais são os riscos da Travessia Lapinha–Tabuleiro?
Perder-se é o risco mais comum. A dissertação de Padoan conta que os moradores dos pontos de apoio muitas vezes saem à noite para procurar caminhantes que não voltaram, e o relato do Trekking Brasil descreve um grupo que errou a bifurcação para o Tabuleiro e precisou voltar uma hora. Organizadores de provas na rota avisam que não há marcação contínua. Leve a trilha gravada e confira a posição nas bifurcações.
A subida e a descida do Pico do Breu são o trecho mais exposto, e não devem ser feitas com neblina, chuva ou pouca luz. Na parte alta do Tabuleiro, fique longe da borda e dos poços quando estiver chovendo na serra. Não conte com sinal de celular na maior parte do caminho, deixe o roteiro com alguém e combine a hora de chegada com quem fará o resgate. Em emergência, ligue 193 (Bombeiros) assim que tiver sinal.

Qual é a história da travessia?
Os caminhos entre Lapinha e Tabuleiro são antigos. A dissertação da UFMG lembra que foram usados por paleoíndios, tropeiros, naturalistas e pelas comunidades da região, e ainda servem a romarias. No começo do século XX, o engenheiro e naturalista Álvaro da Silveira descreveu em "Flora e Serras Mineiras" (1908) sua subida ao Pico do Breu, a cujo cume, segundo os moradores, ninguém tinha ido. Como roteiro turístico, a travessia ganhou fama nos anos 2000 e hoje é um dos atrativos mais procurados da Serra do Cipó.
A rota cruza um divisor de águas: o lado oeste, da Lapinha, drena para o São Francisco; o lado leste, do Tabuleiro, para o Rio Doce, mais úmido e com mais mata. O nome Espinhaço foi cunhado pelo alemão Wilhelm Ludwig von Eschwege em 1822, comparando a serra a uma espinha dorsal, e a UNESCO reconheceu boa parte dela como Reserva da Biosfera em 2005.
A Cachoeira do Tabuleiro, também chamada de cachoeira do coração pelo formato do paredão, foi eleita em 2012 uma das 7 Maravilhas da Estrada Real e duas vezes apontada pelo Guia Quatro Rodas como a mais bonita do Brasil, segundo a prefeitura.
Combina com
- Cachoeira Casca d'Anta (Serra da Canastra, MG): a primeira grande queda do São Francisco, vista de cima e de baixo.
- Pico do Itambé (MG): outro cume do Espinhaço, mais ao norte, perto do Serro.
- Pico do Sol e o Caraça (Catas Altas, MG): o ponto mais alto do Espinhaço, no extremo sul da cordilheira.
Fotos



Perguntas frequentes
Quantos quilômetros tem a Travessia Lapinha–Tabuleiro?
Depende do caminho: entre 20 e 45 km, segundo estudo da UFMG. A prefeitura de Conceição do Mato Dentro indica 42 km em 2 a 3 dias; relatos e mapas online trazem versões de 20 a 34 km.
Quantos dias leva a Travessia Lapinha–Tabuleiro?
A maioria faz em 2 ou 3 dias, com pernoite em pontos de apoio de moradores. Caminhantes muito preparados fazem o trajeto mais curto, contornando o Pico do Breu, em 6 a 7 horas.
Precisa de guia para fazer a Travessia Lapinha–Tabuleiro?
Nenhuma regra oficial encontrada exige guia. Como não há sinalização contínua e perder-se é comum, contrate condutor local se não tiver experiência com navegação por GPS.
Qual é o ponto mais alto da travessia?
O Pico do Breu, com 1.687 m, ponto culminante de Santana do Riacho. A maioria contorna o maciço do Breu, e nesse caso o trajeto fica bem abaixo disso; o Hiking Project registra 1.423 m como ponto mais alto da sua versão.
Qual a altura da Cachoeira do Tabuleiro?
273 m de queda livre, a maior de Minas Gerais e a terceira do Brasil, segundo a prefeitura de Conceição do Mato Dentro. O poço na base tem cerca de 20 m de profundidade.
Onde dormir na Travessia Lapinha–Tabuleiro?
Nos pontos de apoio: casas de moradores que recebem caminhantes com área de camping e, combinando antes, banho quente e refeição. As principais ficam ao pé e no alto da Serra da Calçada.
Como voltar de Tabuleiro para a Lapinha?
Não há transporte público direto entre os dois distritos. O usual é combinar antes um resgate de carro no Tabuleiro, ou deixar o carro em Conceição do Mato Dentro e ir de transporte contratado até a Lapinha.
No mapa
-19.0894, -43.5516 · 1.687 m
Fontes
- 01Travessia Lapinha-Tabuleiro: Turismo · Prefeitura de Conceição do Mato Dentro
- 02Cachoeira do Tabuleiro: Turismo · Prefeitura de Conceição do Mato Dentro
- 03O ecoar da travessia: a imersão humana na travessia Lapinha-Tabuleiro (dissertação de mestrado) · Lucas L. F. Padoan, UFMG (2017)
- 04Travessia Lapinha da Serra to Tabuleiro · Hiking Project
- 05Travessia Lapinha–Tabuleiro (relato) · Trekking Brasil (2011)
- 06Desafio Minas Trail: Travessias, 3ª etapa (Lapinha–Tabuleiro) · Haid / Minas Trail
- 07Pico do Breu to Picos da Lapinha · Trail Run Project
- 08Santana do Riacho · Wikipédia
- 09Cachoeira do Tabuleiro · Wikipédia
- 10Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira · Wikipédia
- 11Serra do Espinhaço · Wikipédia
Publicado em 11 de outubro de 2026. Regras de parques e taxas mudam: confirme com o órgão responsável antes de ir. Capa: Guilherme Haruo, CC BY-SA 4.0.




